O Paradoxo da Proteção: Por que o "Segurismo" está adoecendo nossos filhos?
Muitos pais e cuidadores vivem hoje sob vigilância constante, movidos por um desejo legítimo: poupar os filhos de qualquer forma de dor, conflito ou frustração. No entanto, enfrentamos um paradoxo preocupante. Enquanto tentamos construir um mundo “à prova de riscos”, os índices de ansiedade e depressão entre jovens atingem níveis alarmantes.
Será que, ao eliminarmos os pequenos embates cotidianos, estamos retirando também os “anticorpos” psíquicos necessários para a vida adulta?
Neste artigo, exploro como a cultura do segurismo e a hiperconexão digital transformam a adolescência num campo de stresse crónico, e como a psicanálise nos ajuda a distinguir o conflito necessário do adoecimento.
O que é o Segurismo?
Em nome do zelo, pais e cuidadores caem por vezes numa postura típica de “vigia da experiência segura”. É o que Jonathan Haidt e Greg Lukianoff, na obra The Coddling of the American Mind, denominam como “segurismo“. Trata-se de um sistema de valores onde a segurança se tornou sagrada: as pessoas relutam em expor os filhos a experiências com qualquer grau de frustração ou risco. A segurança sobrepõe-se a tudo, independentemente de quão trivial seja o perigo, tornando a eliminação do risco o objetivo primário da educação.
A segurança se sobrepõe a todo o resto, não importando o quão trivial seja o perigo inerente a experiência. Isso cria uma cultura onde a eliminação de qualquer risco se torna o objetivo primário da criação dos filhos e da educação.
A deturpação do Conceito de Segurança
Durante grande parte do século XX, segurança referia-se à integridade física, exemplificada pelos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) no trabalho. A partir dos anos 1980, o conceito expandiu-se para a segurança psicológica: a confiança de que um membro de um grupo não será humilhado por expressar suas ideias.
Contudo, Haidt argumenta que o segurismo é uma deformação desse conceito. Ele manifesta-se na crença de que “eu não deveria vivenciar emoções negativas pelo que alguém disse” ou no atual “tenho o direito de não ter nenhum gatilho acionado”. Aqui, o conceito de segurança é deturpado e transformado em barreira contra o amadurecimento.
O Inibidor da Experiência
O ser humano necessita de interação social e de uma ampla variedade de experiências para se tornar um “adulto funcional”. A ideia de proteger integralmente a criança de conflitos produz um efeito paradoxal: na busca por proteção, provocamos o empobrecimento da experiência que fortaleceria o sujeito. O segurismo funciona como um inibidor que impede os jovens de obterem a dose necessária de desafios no mundo real.
Apesar dessa busca incessante por segurança, assistimos a um agravamento inédito na saúde mental juvenil. Para gerir o mal-estar inerente à sociedade (fonte eterna de desconforto, como alertou Freud) tentamos controlar todas as fontes de stresse, elevando a segurança a um estatuto intocável.
A Lógica do Condomínio e o Erro Digital
A alegoria da lógica do condomínio, criada por Christian Dunker, ilustra bem o conceito de segurismo. O condomínio não é apenas proteção física; é uma estratégia psíquica para gerir o mal-estar moderno. Promete um espaço onde o risco é abolido por muros, regras rígidas e monitorização 24 horas. É a ilusão de uma “ilha de serenidade” em contraste com o caos do mundo exterior.
Vejam como o autor deste conceito explicar ele no vídeo abaixo.
A metáfora do muro tem a ver com busca de uma segurança, uma assepsia contra o perigo externo.
O condomínio vende a ilusão de uma “ilha de serenidade”, um espaço homogêneo e administrado onde os lugares e posições são fixos e conhecidos, em contraste com o caos (anomia) do mundo exterior. Essa busca tenta transformar a contingência da vida em necessidade controlada, criando uma rotina onde tudo o mais é funcional, administrado e limpo. O condomínio é a realilzação sonhada pelo segurismo.
Entretanto, não existe lugar 100% seguro. O segurismo deixou escapar um fator de risco crítico: os computadores. A sociedade cometeu um erro duplo: superproteção no mundo físico e subproteção no mundo virtual.
Nas últimas décadas, decidimos que o mundo real era perigoso demais para a exploração livre, mas deixamos os jovens vagar sem supervisão na “terra de ninguém” digital. Esse contexto marcou uma geração, desaguando em quadros de transtorno de imagem e depressão devido ao abuso das redes sociais.
A adolescência sob o Olhar da Psicanálise
Vamos começar agora a refletir o atravessamento entre a adolescência e o segurismo. O que a psicanálise tem a dizer sobre isso?
Diferente do senso comum, a adolescência não é necessariamente mais estressante que outras fases; é, sim, um tempo de instabilidade da noção do “eu”. É um momento de reorganização da imagem: o corpo transforma-se, as identificações infantis perdem força e o olhar dos pares ganha um peso colossal.
Para compreender este impacto, recorremos a Freud e Lacan na distinção entre a alteridade:
O outro (a minúsculo): O semelhante, o par com quem me comparo e rivalizo (plano imaginário/narcísico). É o campo da imagem e do corpo. É onde o “eu” (ego) se constitui por meio da identificação com a forma do outro. É uma relação de espelhamento que gera tanto o amor narcísico quanto a agressividade (disputa pelo mesmo lugar).
O Outro (A maiúsculo): O lugar da linguagem, da palavra, da lei e da cultura (plano simbólico). O sujeito só se torna sujeito porque é atravessado por esse Outro que lhe dá um nome e um lugar na cultura.
Uma tabela sempre ajuda a gente a se localizar melhor.
Essa distinção é crucial para entender por que a adolescência atual sofre tanto. Atualmente, como a entrada em jogo das redes sociais, há um excesso de estímulos no campo do outro (imaginário/redes sociais) e, muitas vezes, uma fragilidade na mediação do Outro (simbólico/leis e limites) que ajudaria a organizar esse caos de imagens.
Stresse Crónico X Stresse Produtivo
Um certo nível de tensão é suportado no desenvolvimento do eu. No entanto, o cenário muda drasticamente quando transpomos essa dinâmica para o contexto de uso abusivo das redes sociais.
No “mundo real”, o conflito com o semelhante é pontual e permite a recomposição do eu. No ambiente digital, o adolescente é submetido a um estresse crónico. Nas redes, o embate com o outro idealizado não tem fim; é uma vigilância comparativa 24 horas por dia.
O abalo narcísico deixa de ser um evento elaborável e passageiro para se tornar um estado permanente de insuficiência diante de um feed infinito de perfeição. O algoritmo não oferece pausa para reconciliação. O que seria um estresse produtivo de crescimento transforma-se em estresse tóxico que corrói a estrutura emocional. O eu permanece em estado de alerta constante.
Na adolescência, quando a pergunta “quem sou eu?” está em aberto, essa dinâmica pode fragilizar a construção de uma autoimagem segura. O adolescente passa a dar um peso significativo na organização de sua própria imagem a partir da resposta do outro na interação com as redes sociais: sou isso ou aquilo pois sou reconhecido/aprovado nas redes sociais; valho algo na medida em que sou visto, curtido, comentado. Como o reconhecimento é instável e oscila, a imagem de si também oscila. A ansiedade emerge como sinal dessa instabilidade persistente. Não se trata apenas de medo de julgamento, mas de uma dificuldade em estabilizar a própria imagem diante da multiplicidade de espelhos.
Alguns efeitos desse cenário já são evidentes. Em primeiro lugar, a comparação torna-se contínua. Corpos, viagens, conquistas acadêmicas, relações amorosas, estilos de vida — tudo aparece como vitrine permanente. A comparação, que antes era situada e limitada, passa a ocorrer a cada rolagem de tela. Em segundo lugar, o reconhecimento é quantificado. Curtidas, seguidores e comentários funcionam como marcadores de valor simbólico, transformando o campo imaginário em uma arena de competição mensurável. Em terceiro lugar, intensifica-se a dependência do olhar do outro no reconhecimento de si mesmo. Se o eu já se sustenta, estruturalmente, na relação especular, a possibilidade de medir em tempo real a aprovação ou rejeição amplifica essa dependência.
Conclusão: O Desafio de Sustentar o Conflito
A adolescência vive um momento delicado: é alvo de um segurismo higienista no mundo físico que retira conflitos reais e, ao mesmo tempo, empobrece os recursos simbólicos para lidar com a frustração, enquanto está exposta a uma cena imaginária digital sem fechamento.
Isso não significa que as redes sejam inerentemente patológicas, mas que o “eu” necessita mais de interações “off-line” e mediações para que a tensão com o outro seja produtiva. Um certo grau de estresse é constitutivo da vida psíquica. Por fim, talvez o desafio atual seja sustentar condições onde o conflito seja vivenciado como experiência e não como uma condição ininterrupta.
Leituras recomendadas
HAIDT, Jonathan. A Geração Ansiosa: Como a infância digital está causando uma epidemia de transtornos mentais. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2024
Por que ler: Fundamental para entender os dados demográficos e o impacto biopsicossocial do smartphone na infância e adolescência.
DUNKER, Christian. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil contemporâneo. São Paulo: Boitempo, 2015
Por que ler: Uma análise de como o sofrimento se manifesta na nossa cultura e como a psicanálise lê os sintomas da atualidade
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 16: de um Outro ao outro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008
Por que ler: A base teórica sobre a relação do sujeito com o Grande Outro, o outro e a busca inesgotável pelo objeto de desejo