Psicologia das massas e questões contemporâneas

Por que estudar a psicologia das massas em 2026?

Esta é uma pergunta fundamental para compreendermos a contemporaneidade. A psicologia das massas, ou das multidões, dedica-se ao estudo dos fenômenos grupais de grandes proporções.

Como aponta Gustave Le Bon, pioneiro nesta área, no sentido comum do termo, a palavra “multidão” significa apenas a reunião de indivíduos, independentemente de nacionalidade, profissão ou sexo, e não importando os motivos que os uniram. No entanto, do ponto de vista psicológico, o conceito adquire um significado totalmente distinto.

Em momentos específicos, uma aglomeração de pessoas passa a possuir características novas, muito diferentes daquelas que cada indivíduo apresenta de forma isolada. Para Le Bon, nesses contextos, a personalidade consciente desaparece e forma-se uma “alma coletiva”. Trata-se de uma unidade transitória, mas que apresenta características psicológicas muito nítidas e singulares.

Uma grande multidão de manifestantes vestindo as cores verde e amarelo, as cores da bandeira brasileira, está concentrada em frente a um prédio público em Brasília. A imagem captura a densidade e o movimento do grupo.

Características centrais das multidões psicológicas

Para Gustave Le Bon, o aparecimento da “alma das multidões” significa que, ao reunir-se num grupo, os indivíduos sofrem uma transformação psicológica radical. O autor descreve as multidões através das seguintes características: 

  1. Unidade Mental (Lei da Unidade Mental das Multidões): Em determinadas circunstâncias, um aglomerado de homens apresenta caraterísticas novas, muito diferentes das dos indivíduos que o compõem. A personalidade consciente desaparece e os sentimentos e ideias de todas as unidades são orientados numa única direção
  2. Desaparecimento da Individualidade: O indivíduo deixa de ser ele próprio para se tornar um “autómato”, cuja vontade é incapaz de o guiar. As aptidões intelectuais dos indivíduos e, consequentemente, a sua individualidade, apagam-se no que ele chama de “alma coletiva”.
  3. Predomínio do Inconsciente: Na multidão, o que predomina é o inconsciente e o instinto. Le Bon afirma que as multidões não acumulam inteligência, mas sim mediocridade. O indivíduo na multidão desce vários degraus na escala da civilização: isolado, pode ser um indivíduo cultivado; na multidão, é um instintivo e, portanto, um bárbaro.
Fotografia em plano médio mostrando painéis de espelho quebrados em primeiro plano, com um grande ponto de impacto central e rachaduras radiais. No reflexo distorcido à direita, vê-se a silhueta desfocada de um homem de terno e gravata, afastando-se. O ambiente é um hall moderno e amplo com piso polido.

Causas para o aparecimento das características das multidões

Para Gustave Le Bon, a formação de uma “multidão psicológica” não é apenas o agrupamento de indivíduos, mas a criação de uma nova entidade com uma alma coletiva transitória. Esse fenômeno, no qual a personalidade consciente desaparece e os sentimentos são orientados em uma única direção, é determinado por três causas fundamentais:

1) Sentimento de poder invencível

A primeira causa reside no fato de que o indivíduo, ao fazer parte de uma multidão, adquire um sentimento de poder invencível apenas pelo fator numérico. Esse sentimento permite que ele ceda a instintos que, se estivesse sozinho, seriam obrigatoriamente refreados. Além disso, a multidão é anônima e, consequentemente, irresponsável. O sentimento de responsabilidade pessoal, que normalmente controla os impulsos individuais, desaparece por completo, permitindo a manifestação de comportamentos irracionais e emocionais.

Com isso em mente, analise essa reportagem do UOL sobre o 8 de janeiro de 2023. Veja como os golpistas se sentem a vontade quebrando os prédios no planalto e do STF, como se sentem invencíveis. Notem os sorrisos e os celulares.  

2) Contágio mental

A segunda causa é o contágio mental, um fenômeno que Le Bon compara a processos de ordem hipnótica. Em uma multidão, todo ato e sentimento são contagiosos, a ponto de o indivíduo sacrificar facilmente seu interesse pessoal em favor do interesse coletivo. Esse mecanismo garante que os comportamentos se espalhem rapidamente por todo o grupo, orientando a massa em uma direção comum e fazendo com que o homem aja de forma contrária à sua natureza isolada.

Como afirma Le Bon, ” Em uma multidão, todo sentimento, todo ato é contagiosos, e contagioso ao ponto de que o indivíduo sacrifique muito facilmente seu interesse pessoal ao interesse coletivo. Essa é um propensão contrária à sua natureza, da qual o home torna-se capaz apenas quando faz parte de uma multidão” (LE BON, 2018, p.35)

3) Sugestionabilidade

Para Gustave Le Bon, a sugestionabilidade constitui a causa mais determinante na formação das características especiais dos indivíduos em multidão, sendo o mecanismo do qual o contágio mental é apenas um efeito. Esse fenômeno mergulha o sujeito inserido em uma massa atuante em um estado psicológico muito próximo da fascinação hipnótica, no qual a personalidade consciente desaparece por completo e a vida do cérebro é paralisada. Sem vontade ou discernimento próprios, o indivíduo torna-se vassalo de suas atividades inconscientes, que passam a ser dirigidas pelo líder ou por sugestões que emanam do grupo.

Essa condição de autômato faz com que ele perca a consciência de seus próprios atos e seja empurrado por uma impetuosidade irresistível para a realização de certas ações, muitas vezes contrárias ao seu caráter e aos seus hábitos individuais. Diferente do hipnotizado isolado, no indivíduo em multidão essa força é amplificada pelo fato de a sugestão ser a mesma para todos, tornando-se recíproca e arrastando até mesmo as poucas unidades que teriam força para resistir. Desprovida de espírito crítico e incapaz de distinguir o real do irreal, a multidão sob efeito da sugestão aceita como verdades as lendas e imagens evocadas em seu espírito, agindo com a ferocidade ou o heroísmo próprios de seres primitivos e bárbaros

Captura de tela de uma postagem na rede social X (antigo Twitter) do perfil Isac Ferreira, datada de 8 de janeiro de 2023. O texto diz: "Festa da Selma não tem hora pra acabar!!! Levem suas bíblias e seus direitos!!". Abaixo, uma foto mostra a Esplanada dos Ministérios em Brasília ocupada por uma multidão durante os atos antidemocráticos.

Em resumo, esses três processos transformam o indivíduo em um “autômato sem vontade”, fazendo com que ele desça vários degraus na escala da civilização: enquanto isolado pode ser um homem cultivado, na multidão ele se torna um ser instintivo e bárbaro

A crítica a Le Bon: Gabriel Tarde e Sigmund Freud

Alguns teóricos discordaram de Le Bon e de sua visão sobre a multidão. Entre eles temos o francês Gabriel Tarde e o pai da psicanálise, Sigmund Freud.  

Gabriel Tarde: A opinião e as massas (1901)

Em “A opinião e as massas”, lançado em 1901,  Gabriel Tarde defende que a modernidade produziu um deslocamento fundamental na natureza dos agrupamentos humanos, movendo-se da era das multidões para a era dos públicos. Enquanto a multidão clássica exigia a presença física e o contato direto entre os corpos para que ocorresse o fenômeno do contágio emocional, o público constitui uma coletividade puramente espiritual, formada por indivíduos dispersos geograficamente. Tarde argumenta que a massa não precisa estar fisicamente reunida em uma praça para ser influenciada; pelo contrário, a coesão de um público advém da simultaneidade de suas convicções e paixões, alimentada pelos meios de comunicação.

Nesse cenário, a “ação a distância” torna-se o principal motor da vida social, permitindo que a sugestão mental se propague sem a necessidade do toque ou da visão direta. O indivíduo, sentado em sua casa, ao ler um jornal ou consumir uma informação, torna-se consciente de que milhares de outros estão recebendo a mesma ideia naquele exato momento. Essa consciência de coletividade, mesmo no isolamento físico, cria um vínculo psicológico poderoso onde a “lei da imitação” opera de forma invisível. Diferente da multidão, que é transitória e limitada pelo espaço, o público é permanente e expansivo, capaz de unificar opiniões de forma muito mais profunda e duradoura. Para Tarde, essa “multidão espiritualizada” é o fenômeno definidor da sociedade moderna, transformando cada cidadão em um repetidor de correntes de opinião que circulam pela midiosfera, provando que o contágio das ideias é muito mais potente do que o contágio dos corpos.

Sigmund Freud: Psicologia das massas e análise do Eu (1921)

Sigmund Freud, na sua obra “Psicologia das massas e análise do Eu” (1921), reconhece a relevância pioneira de Gustave Le Bon na descrição dos fenómenos coletivos, mas estabelece uma crítica profunda à natureza dos vínculos que sustentam a multidão. Enquanto Le Bon utilizava a hipnose apenas como uma analogia descritiva para a sugestão mental, Freud argumenta que a hipnose não explica o fenómeno por si só, sendo ela própria um mistério que precisa de ser desvendado através da psicanálise. Para Freud, o que mantém uma massa unida não é um simples contágio mecânico ou uma “alma” mística, mas sim vínculos libidinais e afetivos que passam obrigatoriamente pela figura de um líder.

Freud questiona a dependência que teóricos anteriores tinham do conceito de sugestão, considerando-o uma explicação circular que não atinge a raiz do problema. Ele propõe que o estado da massa é, na verdade, uma regressão psíquica a um estado primitivo da horda primeva, onde a hipnose atua como uma formação de grupo reduzida a duas pessoas: um estado de apaixonamento extremo em que o sujeito abdica da sua própria personalidade consciente em favor de um objeto, seja ele o hipnotizador ou o líder. Na massa, este processo ocorre simultaneamente com milhares de indivíduos, criando uma estrutura de desejo coletivo.

Ouçam o discurso de Jair Bolsonaro, agora com essa reflexão como lente:

A grande contribuição freudiana reside na explicação desta estrutura através do conceito de identificação. Os indivíduos da massa colocam um único e mesmo objeto, o líder, no lugar do seu Ideal do Eu, que é a instância mental responsável pelos padrões de conduta e moralidade. Ao delegar esta função a uma autoridade externa, os indivíduos passam a partilhar o mesmo ideal, o que gera uma identificação recíproca entre as unidades do grupo. É este amor comum ao líder que permite a coesão da massa e a sensação de fraternidade, mas que também revela a fragilidade do vínculo: na ausência do chefe ou na quebra da ilusão de que ele ama todos por igual, a massa desativa a sua capacidade de autocrítica, entra em pânico e dissolve-se, provando que a submissão hipnótica é o motor de uma força social avassaladora baseada na renúncia do eu individual.

Conclusão: A psicologia das massas hoje

Em suma, as teorias clássicas de Gustave Le Bon revelam-se assustadoramente atuais ao analisarmos os eventos de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, onde o obscurecimento da razão individual deu lugar a uma “alma coletiva” movida por impulsos irracionais e o sentimento de impunidade conferido pelo anonimato.

Contudo, uma análise contemporânea exige reconhecer as limitações de Le Bon, cuja obra é marcada por um viés conservador que reduz a multidão a uma massa puramente bárbara e destrutiva, ignorando as causas sociais profundas desses agrupamentos.

É nesse hiato que as contribuições críticas de Gabriel Tarde e Sigmund Freud tornam-se essenciais: enquanto Tarde sofistica a compreensão do fenômeno ao demonstrar que a massa não precisa estar fisicamente reunida para ser influenciada (antecipando o papel da “opinião” e do público conectado por meios de comunicação), Freud aprofunda a análise ao explicar que o vínculo da massa não é apenas sugestão, mas uma ligação libidinosa e de identificação com o líder, que passa a ocupar o lugar do Ideal do Eu dos indivíduos.

Assim, o 8 de janeiro não foi apenas uma explosão de barbárie leboniana, mas um fenômeno complexo de contágio mental tardiano potencializado por redes digitais e uma profunda regressão psíquica freudiana, onde a substituição do pensamento crítico pela aceitação de quimeras e a submissão a uma liderança simbólica resultaram na sobreposição da da barbárie/golpismo sobre a democrática.

Representação da hipótese diagnóstica em psicanálise e a escuta do analista

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Bibliografia e leituras recomendadas

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura e outros escritos. Tradução de Paulo César de Souza. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. (Obras Incompletas de Sigmund Freud).

Por que ler: Indispensável para compreender a arquitetura dos laços sociais e a identificação. Freud detalha a mecânica psíquica que sustenta as coletividades, demonstrando como o indivíduo abre mão de seu Ideal do Eu em favor de um líder ou de uma ideia, transformando a psicologia individual em psicologia social sem perder o rigor clínico.

Por que ler: Fundamental para a compreensão da alma das multidões e sua lógica de funcionamento. Le Bon detalha as leis que regem a unidade mental dos agrupamentos, descrevendo como o indivíduo opera sob impulsividade e dogmatismo ao submergir na coletividade, tornando-se permeável a imagens e palavras de ordem que ignoram a racionalidade.

Por que ler: Essencial para entender a era dos “públicos” digitais e o fenômeno da sugestão à distância. Tarde detalha como a opinião se propaga por ondas de imitação e invenção, diferenciando a massa física da rede de consciências conectadas pela mídia, oferecendo as bases para analisar a viralização e o contágio discursivo contemporâneo.

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